Marolinha | Crianças e adolescentes | Jornalista lança obra sobre a prevenção e o enfrentamento do abuso sexual infantojuvenil

Após participar de uma palestra de enfrentamento à pornografia infantil, em 2004, na Universidade de Brasília, a jornalista e professora Aldenora Moraes entrou em contato com uma face perversa da condição humana. A indignação deu lugar à ação e resultou em um mestrado em Comunicação sobre a abordagem da mídia nos casos de abuso sexual de crianças e adolescentes.

Durante a pandemia, a pesquisa originou a obra Tudo o que você precisa saber para prevenir e enfrentar o abuso sexual de crianças e adolescentes. “Desde o início das pesquisas sobre esse fenômeno, me deparei com histórias pungentes. Por isso, a proposta do livro é falar sobre o tema de uma maneira acessível e sem o horror costumeiro”, esclarece Aldenora.

Para facilitar, a obra responde a 50 questões sobre o abuso sexual infantojuvenil, desde perguntas básicas às mais complexas. A partir de situações fictícias , a jornalista esclarece os mitos que permeiam o tema e indica livros e filmes. “Cito 80 filmes porque acredito que um percurso lúdico pode favorecer a compreensão e permitir uma aproximação com o tema de maneira mais sutil”, explica a jornalista.

O SILÊNCIO PROTEGE O ABUSADOR

Segundo a autora, uma das histórias mais comoventes surgiu em uma conversa em um salão de beleza. “Estava na manicure, quando ela comentou sobre a suspeita de uma criança ser violentada pelo próprio pai. Ela não tinha coragem de fazer a denúncia, mas me deu todos os dados necessários. Fiz a ligação para o Disque 100, no mesmo dia. Após um tempo, a suspeita se confirmou e a criança foi retirada do lar e passou a morar com a avó. Com uma ligação foi possível resgatar uma criança dos estupros”, emociona-se.

No entanto, nem todas as histórias abusivas terminam de maneira similar. A autora defende que tomar consciência de nossa corresponsabilidade ainda é um caminho a ser percorrido. Apenas em 1990, crianças e adolescentes passaram a ser tratados como sujeitos de direitos e, embora, a Constituição enfatize que proteger é um dever de todos, ainda depende da ética e da empatia pessoal.

Segundo a autora, o livro evidencia que o fenômeno não se trata de algo que ocorre apenas em algumas famílias. Para ela, estruturas sociais sustentam e incentivam o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes. A partir das assimetrias nas relações de poder, meninos e meninas participam de relações forçadas que impactam o desenvolvimento saudável. Por isso a importância da denúncia, a fim de que o ciclo de violência cesse. Ainda segundo Aldenora, “a obra é um alerta para a importância da informação na luta pela proteção da infância e adolescência”, conclui.

Serviço

Tudo o que você precisa saber para prevenir e enfrentar o abuso sexual de crianças e adolescentes

Autora: Aldenora Moraes

Disponível para venda na Amazon e demais livrarias virtuais. 155 páginas; R$ 33,00 reais.

Sobre a autora

Aldenora Moraes é jornalista, professora e mestra em Comunicação. Trabalha na Diretoria de Educação do Campo, Direitos Humanos e Diversidade (DCDHD) e apresenta o Podcast EducaDF, da Secretaria de Educação do DF.

Marolinha | Crianças e adolescentes | “A pandemia da covid-19 pode aumentar a violência sexual infantojuvenil”, diz especialista

Imagem: Pexels

Aos oito anos, *Maria sofreu o primeiro abuso sexual pelo pai. A violência só teve fim uma década depois, quando ela teve coragem de denunciá-lo. “Não foi uma decisão fácil. Fui desacreditada. Minha mãe o defendeu e pagou advogado para ele. Até meus irmãos me abandonaram, mas houve justiça”, relembra.

Os efeitos da pandemia da covid-19 não se restringem ao elevado número de mortes ou infectados, a violência contra as crianças e adolescentes têm proliferado nos lares brasileiros e pela internet. Indicadores do canal de denúncias da Safernet Brasil referente ao mês de abril deste ano em comparação a 2018 indicaram 108% de aumento nas denúncias de pornografia infantil na internet.

No entanto, o problema não é de hoje. O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de 2018 comparou os anos de 2011 e 2017 e observou-se um aumento nas notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes: 64,6% e 83,2%, respectivamente.

Para a pedagoga Ada Lima todo cuidado é pouco. “Precisamos enxergar a criança como um sujeito de direitos. A partir dessa constatação, proteger crianças e adolescentes não se restringe à família, mas é uma responsabilidade de todos. Da igreja, da escola, da polícia, do judiciário, dos vizinhos. A denúncia e a informação são as ferramentas mais efetivas para a prevenção e proteção”, explica a pedagoga.

18 de maio: Lembrar é combater

O Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes foi instituído pela Lei Federal 9.970/00 há exatos 20 anos. A data remete ao crime bárbaro cometido contra a menina Araceli, de oito anos. Em 1973, na cidade de Vitória, no Espírito Santo, ela foi torturada, estuprada e morta. O crime permanece impune.

“O tema do abuso sexual infantojuvenil traz repugnância. Não conseguimos compreender o porquê de alguém agredir sexualmente uma criança. Em vez de focar no medo, precisamos agir. Essa criança poderia ser qualquer um de nós, por isso é preciso ter coragem para fazer a denúncia, você pode salvar uma vida com uma ligação”, alerta Ada Lima.

A especialista explica que as denúncias podem ser feitas pelo Disque 100, todos os dias da semana, 24 horas por dia, inclusive nos fins de semana e feriados, gratuitamente e de forma anônima.

Embora não haja um perfil do abusador sexual, dados estatísticos como os da Ouvidoria do Ministério da Mulher, da Família e Direitos Humanos apontam que em 73% dos casos, o abuso sexual ocorre na casa da própria vítima ou do suspeito; e é cometido por pai ou padrasto em 40% das denúncias. O suspeito é do sexo masculino em 87% dos registros.

“As meninas são maioria, mas meninos também são violentados. Contudo a subnotificação dificulta os dados sobre esse fenômeno. Além disso, não há um perfil do abusador, há denúncias de padres, médicos, vendedores, professoras. A criança e o adolescente bem informados têm muito mais condições de revelar os abusos ou impedir que eles comecem”, garante a pedagoga.

* O nome foi trocado para preservar a identidade da entrevistada

Acesse o site da Campanha 18 de maio:

https://www.facabonito.org.br/